Vida de professor universitário

Ser professor definitivamente não é fácil. Mesmo que você ame esta profissão, sabe o quanto pode ser terrível encarar uma sala com dezenas de alunos, com pessoas dos mais variados perfis. Mas, ao mesmo tempo, pelo menos para mim, é gostoso, prazeroso e gratificante ensinar (e aprender). O contato e a interação com os alunos são, na maioria dos casos, bem positivo.

Algumas pessoas começam esta profissão por falta de opção, outras pelo salário (ha ha ha), outras porque são bem falantes, outras porque acreditam que o futuro do país está na educação… enfim, há vários motivos. O meu caso foi um pouco diferente: eu comecei porque sinto uma imensa necessidade de compartilhar experiências. Eu gosto de uma frase que diz: “Aprender com os próprios erros ameniza o prejuízo, mas o bom mesmo é aprender com os erros dos outros”. Eu gosto de mostrar caminhos e seus resultados (erros e acertos), mostrar uma teoria funcionando na prática, desvendar mistérios (como funciona um chip internamente?), alertar possíveis escolhas erradas, mostrar boas práticas. Já aconteceram situações onde eu estava com um problema técnico no meu outro trabalho, e ao chegar em sala de aula, gastei o tempo discutindo o problema, elaborando soluções com os alunos, o que torna este tempo algo produtivo. Para ilustrar melhor esta característica, posso citar como exemplo uma experiência que tive ao ministrar aulas de Pesquisa Operacional e Estatística nos cursos Engenharia de Produção e Psicologia, respectivamente. A experiência foi terrível, porque apesar de ter formação em Engenharia de Computação e possuir teoricamente uma base sólida em matemática, eu não fazia a menor ideia do que as minhas disciplinas resultavam na prática para estes cursos de graduação, ou seja, por ser um profissional de computação, é relativamente fácil ministrar aulas nos cursos relativos a esta área, por saber exatamente o que os alunos precisam conhecer e como as teorias funcionam na prática. Já em cursos como os citados, não existia prazer, era totalmente mecânico e chato falar os conceitos, sem estar nem um pouco relacionado à área de atuação dos alunos.

Claro que nem tudo são flores, existe a parte burocrática: efetuar chamadas, entregar diários e planejamento de aulas, discutir metodologias de ensino, participar de reuniões. O professor também precisa ter uma boa dose de psicologia para lidar com os alunos. É necessário manter a calma em situações mais tensas. Por lidar com tantas pessoas de vários perfis, alguma hora vai acontecer algo desagradável. Eu mesmo já errei neste aspecto, já tive discussões desnecessárias com aluno, já saí da sala em estado de nervos, mas com o tempo, aprendi a contornar estes problemas, adquirindo um pouco de sabedoria para lidar melhor com cada aluno no seu respectivo perfil. Acho que o grande segredo é transferir a pressão ao aluno, porque este é quem precisa aprender e, consequentemente ser aprovado. Professor não deve se estressar, este precisa apenas ser sutil, ou seja, impor o ensino com coerência e elegância. É importante mencionar esta parte “psicológica” porque, nos dias de hoje, o relacionamento aluno/professor é bem diferente. Nos meus tempos de faculdade, desrespeitar o professor era coisa de maluco, ninguém queria “queimar o filme”. Hoje, dependendo da forma como você aborda o aluno, leva respostas altamente desagradáveis e perde facilmente o controle da aula, pois maus comportamentos são facilmente imitados. O mais legal de aprender o auto-controle e a sutileza é como isso será aplicado no dia-a-dia, onde você poderá evitar muitos problemas e desentendimentos na sua vida pessoal.

Outra característica que um professor deve possuir é o prazer na leitura e entendimento pleno de livros técnicos. Uma coisa é ler um livro do Paulo Coelho e outra totalmente diferente é ler um livro do Tanembaum sobre Sistemas Operacionais. Um livro como o mencionado, você poderá gastar dias para entender algumas páginas, pois o conteúdo é bastante técnico. Eu não imagino um professor ministrando disciplinas bem técnicas e específicas sem ter conhecimento profundo do conceito. E não se aprende de forma satisfatória apenas lendo artigos ou pesquisando no Google. De qualquer forma, admiro e vejo como professores ideais os que se baseiam na teoria dos livros técnicos, mas possuindo conhecimento prático de como aquilo se aplica, evidenciando acertos e erros. Não vejo como correto o professor ministrar qualquer conteúdo sem forte apoio bibliográfico.

Algumas (para não dizer muitas) pessoas possuem dificuldade ou temor de falar em público. É mais fácil falar quando a plateia é composta por pessoas que você possui alguma intimidade. Mas, de qualquer forma, a única maneira que eu vejo para esta barreira ser vencida é adquirir pleno domínio do que irá dizer, sem margem para dúvidas. Neste ponto, me inspiro muito no finado Doutor Enéas Carneiro, que utilizava esta tática, por ser tímido. Oxalá se todas as pessoas que falam em público tivessem esse temor, tenho certeza de que escutaríamos bem menos besteiras do que o habitual.

Um aspecto em especial que foi necessário aprimoramento ao longo dos anos chama-se “humildade para aprender onde se deveria ensinar”. Hoje, estamos em uma época em que os alunos assistem às aulas com seus smartphones, tablets, notebooks, todos conectados à internet. Quando o professor menciona uma teoria, a primeira coisa que o aluno faz em sala é pesquisar imediatamente sobre o assunto e questionar sobre algo relacionado, encontrado em lugares como o Google. Por melhor que seja o professor, ninguém sabe tudo. Deve-se ter humildade em afirmar o desconhecimento do assunto e buscar uma resposta, além de prestar atenção e aprender com o conteúdo que o aluno vai agregar à aula. Só tenho a agradecer a Deus o quanto aprendi com os alunos no decorrer dos anos, seja com uma forma mais eficiente de resolver um problema, ou com novas informações sobre determinado tema. Por exemplo, na semana passada um aluno me perguntou como que o chip da memória RAM é volátil, ou seja, perde informações ao ser desligado da energia, e a memória FLASH do pendrive é não-volátil, ou seja, não perde informações ao ser desligado da energia. Apesar deste assunto não ter nada a ver com a disciplina, a curiosidade foi despertada. Fui humilde em dizer que não sabia, pesquisei no Google e, após alguns estudos, discuti com a turma sobre o assunto, para sanar a curiosidade de todos, inclusive a minha.

Aproveitando o que foi mencionado sobre essa conectividade digital em sala de aula, também é cada vez menor o número de alunos que copiam matéria do quadro. Para falar a verdade, já vejo isso como algo meio século XX. Acho que o mundo ideal seria o professor disponibilizar slides apoiados em bibliografia, apresentá-los em um projetor, resolver exercícios e tirar dúvidas no quadro. Caso o professor e a instituição não possuam projetor, deve-se colocar no quadro apenas os tópicos que serão abordados, evitando perda de tempo copiando desnecessariamente conteúdo que já está escrito em livros. Já vi extremos dos dois lados: professores que ficam metade da aula copiando no quadro, e outros que não copiam nada no quadro e também não possuem estrutura de tópicos, ou seja, a aula fica sem pé-nem-cabeça, pois não existe sequência, o professor vai falando o que vai lembrando que precisa falar.

E, por último, não diria que é obrigação, mas acho muito importante o professor, independentemente da área, se manter atualizado. Adoro me atualizar sobre tecnologia, games, notícias, e discutir em sala, tornando a aula mais descontraída. Seja um gol novo do Messi, ou um novo exclusivo do Playstation 3, ou uma nova placa da Nvidia, é muito legal trocar informações de diversos aspectos com os alunos. Nesta semana discuti com uma turma como funciona o SSD (solid-state drive) e como ele pode revolucionar a tecnologia em geral e, mesmo não sendo algo relacionado com a disciplina, sinto que, após um bom diálogo, todos são “edificados”. Sinto que às vezes o professor precisa ser um pouco evangelista, é legal apresentar visões e conclusões com coerência, sem posicionamento radical, apenas focando em fatos, “iluminando” a turma e ajudando a desenvolverem melhor o raciocínio.

Enfim, desde as monitorias nos tempos de faculdade, até às aulas em escola de informática, aulas particulares, e por fim, desde 2008 com aulas na graduação e pós-graduação, diria que hoje sou um professor que, com acertos e erros, descobriu um pouco como lidar com aulas, como ensinar e como aprender, tornando esta profissão algo gratificante.

About CarlosEduardoXP

Especialista em desenvolvimento de Sistemas Distribuídos, sempre aplicando boas práticas e padrões difundidos na comunidade. Auto didata, fanático por refatoração e performance, sempre buscando reutilização e testes automatizados cada vez mais eficazes.
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5 Responses to Vida de professor universitário

  1. hendersonandrade says:

    Ótimo post Cadu!!!
    Posso dizer com certeza, e sem nenhum tipo de “puxa-saquismo” que você foi um dos melhores professores que tive durante o curso de graduação.

  2. André Jun says:

    Olá, Carlos! Não nos conhecemos, mas estamos na mesma carreira de docentes do Ensino Superior. Não sou de exatas, mas de humanas, entretanto os desafios em sala são basicamente os mesmos.

    Tentando acrescentar um pouco, acho que um bom exemplo a respeito desta evolução que vc cita no final é a questão do e-learning e de alguns modelos que já temos visto, como a Khan Academy. Muita gente está lendo, fazendo, aprendendo on-line. Esse auto-didatismo, que algumas pessoas já têm, precisa ser desenvolvido.

    Abs!

  3. cidadaossp says:

    Professor, muito bom, sou funcionário público de outra área e estou me preparando para entrar na vida Acadêmica como docente. Seus comentários são ótimos, falam da realidade sem tirar o encanto pelo ensino. Deus te abençoe…

  4. Danilo Gomes says:

    Parabéns pelo texto. Estou iniciando minha carreira docente agora e seus relatos foram inspiradores. Abraço.

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