Pirataria nos games: devo dizer “não”?

Estava lendo o artigo O maior legado do PlayStation 3 foi nos ensinar a dizer não à pirataria e naturalmente me veio uma certa reflexão sobre o impacto da pirataria no mundo dos games. Como muitos jovens entre 25 e 35 anos, faço uso de jogos piratas desde a época do Snes, onde investia R$ 25 em uma fita, sendo que a original custava em torno de R$ 140 (para se ter uma idéia, o salário mínimo nesta época era de R$ 100). Lembro-me de pagar R$ 7 em um CD pirata de Playstation quando o salário mínimo era de R$ 130, de comprar 18 disquetes ao custo de R$ 0,70 cada e criar um ARJ pelo DOS para ter Duke Nukem 3d pirateado. Na época, para a grande maioria dos garotos, era inconcebível pedir aos pais comprarem uma fita que custava quase 1 salário e meio. Os jogos eram absurdamente caros, com preços impraticáveis para nossos padrões. Desta forma, a pirataria nos ajudou muito para ter acessibilidade aos jogos. A pirataria era tão forte que, se alguém da época me falasse que quase 20 anos depois estaria comprando jogos originais, provavelmente daria uma boa gargalhada, seja por incredulidade ou talvez por pensar que estaria rico no futuro.

Cartucho que custava R$ 140 em 1996. Este jogo utilizada o chip S-DD1, logo este cartucho não possuía versão pirata

Entretando, as coisas mudaram um pouco nos dias de hoje. Alguns fatores surgiram para facilitar a preferência por jogos originais. O primeiro (e mais importante) foi a inclusão de modos online, onde você pode jogar contra qualquer pessoa que também possua o jogo e esteja conectada na internet, além de poder receber atualizações, correções de bugs. É óbvio que jogar online é anos-luz mais divertido, não existe comparação. E, neste aspecto, a pirataria é extremamente dificultada ao conectar seu jogo na internet, chegando ao ponto de contas serem banidas (Psn e Live). Portanto, ao aderir um jogo pirata, este jamais deverá estar exposto à internet, se limitando às opções offline do mesmo.

Quem já jogou Battlefield 3 online sabe como é maravilhoso estar conectado

O segundo fator foi a redução dos preços, se comparado à antigamente. Uma mídia de Battlefield 3 original para PC custa R$ 99, sendo que o salário mínimo hoje gira em torno de R$ 622. Colocando em proporção com o valor praticado em 1995, hoje este jogo custaria cerca de R$ 870. Claro que para alguns, R$ 99 parece um valor alto, mas sendo honesto, para muitas pessoas de classe média, este valor sequer paga um almoço de domingo para 3 pessoas. Aliado a isso, é inegável que, com a expansão da pirataria, os fabricantes deram uma recuada nos seus preços. Para se ter uma idéia, em 1998 eu comprei o CD Ride The Lightning do Metallica, pagando R$ 25 . Hoje, na livraria Saraiva, este CD custa R$ 19,90 link. Não existe a menor possibilidade de se comparar o valor R$ 25 em 1998 com o ano atual já que, naquele ano, a Coca Cola 2l custava R$ 1,25😀 .

O terceiro fator está vinculado à dificuldade em piratear alguns consoles desta geração, como é o caso do Playstation 3. O console citado foi lançado no final de 2006 e apenas 4 anos e meio depois descobriram uma forma de pirateá-lo, sendo que esta não é 100% eficaz, já que não consegue rodar muitos dos jogos atuais, onde estes exigem firmware atualizado. Claro que, existem outras opções para se praticar pirataria, como PC ou XBox 360, porém é muito difícil ignorar jogos exclusivos do console, como Uncharted 2, Uncharted 3 ou Metal Gear Solid 4, nos obrigando a comprar a mídia original. E se o Playstation 3 nos mostrou “o caminho das pedras” nesta geração, é possível que as próximas sejam ainda mais dificultadas, já que, por mais que a pirataria estimule a venda de consoles, empresas como Sony ou Microsoft obtém lucro apenas na venda de jogos.

Não há como ignorar jogos que não podem ser pirateados, como o citado abaixo

O quarto fator está vinculado à pouca demanda de jogos, especialmente para adultos. Hoje, para uma pessoa entre 25 e 35 anos, poucos jogos são suficientes. Para efeito de comparação, em 1996 eu tive um Playstation com 50 jogos (todos piratas, obviamente), e joguei todos até terminar, sabia todos os golpes, dicas, poderes, habilidades, etc.. etc.. etc.. . Hoje, com um Playstation 3, devo ter chegado até o fim em no máximo 7 jogos. Não existe a menor possibilidade de se comparar o tempo disponível de um garoto com 14 anos com um homem de 29. Adultos geralmente não precisam de muitos jogos, apenas precisam de poucos que de fato o divirtam no seu tempo livre.

Porém, a discrepância mencionada no quarto fator merece uma atenção especial. Vou citar o exemplo de um amigo de 37 anos, onde este é casado e possui 3 filhos adolescentes. Ele estava na dúvida sobre qual console comprar, e no final das contas, resolveu investir em um Playstation 3 com 2 jogos originais: “Call of Duty Black Ops” e “God of War 3”. Ao jogar Call of Duty, este ficou encantado: sempre que possui algum tempo livre, procura jogar online, adquirindo troféus, status, etc… já com os 3 filhos adolescentes, aconteceu um efeito um pouquinho diferente: na primeira semana, terminaram God of War 3 no modo mais difícil. Na segunda semana terminaram Call of Duty no modo mais difícil. Na terceira semana, exigiram a aquisição de um novo jogo. Quando o pai disse não, alegando que jogos são caros e não tem como comprar um jogo toda semana, os garotos deixaram o console de lado, apenas jogando quando conseguiam algo emprestado com amigos. Resultado: os jogos originais atenderam perfeitamente à expectativa de um jogador mais velho, pela pouca demanda por falta de tempo e pelos modos online, mas com relação aos garotos, por possuírem mais tempo, além de enjoarem mais rápido, 2 jogos é muito pouco, transformando o console em um investimento muito caro. Eu não gostaria de estar na situação dele😀

Ainda sobre o quarto fator, há algumas controvérsias, como já demonstrado. Para exemplificar, vou apresentar outro exemplo, onde este envolve um parente de meia idade, que odeia games e possui 2 filhos adolescentes. Este adquiriu um Playstation 3 pitateado, com o HD possuindo 30 jogos. Estes garotos terminaram e enjoaram de todos os 30 jogos em 6 meses, obrigando-o a adquirir um novo HD com mais sei la quantos jogos. Os garotos nem ligam para modos online ou para atualização de jogos, só pensam em terminar, aprender golpes, etc.. já imaginou quanto este gastaria se tivesse adquirido todos os jogos originais? Em casos como este, fica um pouco difícil resistir à pirataria, porque a discrepância de valores investidos é grande demais e o retorno seria quase o mesmo.

Com o que foi dito, conclui-se que, diferente de antigamente, há grandes vantagens em adquirir jogos originais, e estas tendem a aumentar bastante no futuro, com maiores opções de conectividade e distribuição (jogos nas nuvens?) contudo, em alguns casos, a pirataria ainda é inevitável, especialmente quando se tem filhos com muito tempo sobrando😀

About CarlosEduardoXP

Especialista em desenvolvimento de Sistemas Distribuídos, sempre aplicando boas práticas e padrões difundidos na comunidade. Auto didata, fanático por refatoração e performance, sempre buscando reutilização e testes automatizados cada vez mais eficazes.
This entry was posted in Games. Bookmark the permalink.

2 Responses to Pirataria nos games: devo dizer “não”?

  1. Acredito que a busca desenfreada por novos títulos de games não é a “sobra de tempo”, mas sim, o fato de não saber consumir.

  2. Ótimo comentário Leandro. Quando fiz este post, também pensei nisto, se dois garotos jogando 30 jogos em 6 meses não seria um exagero de consumismo que deveria ser controlado pelos pais. Mas, de qualquer forma, a disponibilidade deles é maior, consequentemente, se em 2 semanas eu chego no ponto x de um jogo, eles chegam no ponto 10x rssss

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s